Sobre mim, sobre ser especial e, ao mesmo tempo, sobre ser só mais uma.

 

Eu sou a Camila. E me sinto especial em estar aqui pra falar de mim e da minha percepção sobre minha vida.

Eu podia começar dizendo que tenho 31 anos, que sou arquiteta, servidora pública federal e que tenho um projeto social, o Mobilize.

Mas eu podia também simplesmente dizer que eu sou a Camila, que eu sou feliz e que eu poderia ser o que eu quisesse ser. Talvez soasse estranho, até esnobe, mas na verdade seria apenas uma forma de dizer que sou grata. Quem recebe da vida tantos privilégios e, com eles, tantas oportunidades só tem mesmo que fazer jus, fazer valer a pena tudo o que recebeu e tentar dar o melhor destino pra sua vida. Não tive só acesso à escolaridade, aprendi também a pensar. Não tive só uma família maravilhosa, carinho e amor, mas aprendi também a sentir.

Desde que comecei a me dedicar ao Mobilize e ouvi pela primeira vez sobre a “loteria ovariana da vida”, vejo as coisas de uma forma diferente. Falo dessa loteria que define, ao mero acaso, se vamos nascer num lugar ou no outro, num país ou no outro, numa família rica ou miserável, cercados de amor ou de discórdia, homens ou mulheres, negros ou brancos, saudáveis ou deficientes. Não que cada um não possa ser senhor da própria história, construir uma vida de luta, “dar a volta por cima”, perseverar, vencer, ser feliz. Mas é inegável que as condições preestabelecidas desde o nascimento influenciam em grande parte, e inclusive em muitos casos são determinantes, no destino de tantas vidas.

Então, volto de onde comecei. Muito pouco do que sou ou tenho hoje é mérito do meu esforço.
Não que eu tenha recebido tudo pronto, eu corri atrás dos meus objetivos e dei importância ao que me foi oferecido. Mas acredito que não tenha feito mais do que minha obrigação como alguém que teve tantos facilitadores da vida: nunca sofri preconceito racial, nunca sofri bullying, sempre tive comida, casa, amor, educação, amigos. Basta! Tive sorte na loteria da vida e acredito que devo ser grata por isso. Gratidão, na percepção de um amigo, é um sentimento que remete à responsabilidade. Pensando desta forma, ser grata tem me remetido à obrigação de exercitar cada dia mais intensamente minha empatia.

E acredito mesmo nisso, que a empatia seja uma questão de exercício. Não é simples se colocar no lugar do outro, afinal, o lugar do outro é um lugar que a gente não conhece. Mas é preciso tentar ser sensível aos problemas alheios. É preciso tentar ser sensível às causas alheias, de pessoas ou de grupos, às causas das minorias sociais. Sou uma delas, sou mulher.
Ser mulher carrega ainda hoje o estigma de não poder ser livre. Não é fácil sentir-se especial sem liberdade. Com muita empatia e muita luta talvez um dia ser mulher seja sinônimo de ser especial. Ou, melhor que isso, ser mulher se torne algo indiferente, tanto quanto seja ser homem. Que possamos ser humanos, iguais. Isso sim seria especial.

Que cada mulher possa se sentir especial, mas não mais do que as outras. “Mulheres, uni-vos”, lema importante! Que cada mulher possa se sentir especial, mas não mais do que os homens.
Não mais do que qualquer outro ser desse planeta. Ou de outro planeta. Do ponto de vista do Universo, a Terra é só um ponto azul. E todos nós, poeira cósmica, seres sem grande importância.

Eu sou a Camila. E me sinto especial, pelo simples e complexo fato de estar viva e de ser só mais uma na multidão

Camila Righi de Almeida
14/11/2017

3 Comentários

  1. Cassia

    Camila querida, te parabenizo por ser “especial, voluntária, amada, dedicada, filha querida.

  2. Isabela Torres

    Lindo texto!

  3. Jussara

    Adorei Camila, e ainda dança muito bem kk Bjus

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