Puerpério, depressão e morte materna. Precisamos falar sobre isso

Oficialmente, o puerpério é o período que decorre desde o parto até que os órgãos e o estado geral da mulher retornem ao estado anterior à gestação. Convenciona-se um prazo de cerca de 40 dias após o parto. Mas há estudos e observações que indicam que ele pode durar até 2 anos ou mais após o nascimento do filho. Eu, particularmente, penso que nunca mais se volta ao estado anterior!

No puerpério imediato (até o 10º dia pós-parto) é comum a presença um sentimento de tristeza e solidão, choro sem motivo aparente (e geralmente com hora marcada!), mudanças repentinas de humor. A esse conjunto de sintomas damos o nome de tristeza pós-parto, blues puerperal ou ainda estado puerperal. Esses sentimentos são bastante comuns, atingem cerca de 60% das puérperas, costumam durar cerca de duas semanas e desaparecer espontaneamente. Esse momento precisa ser acolhido, e a mulher apoiada e consolada nos momentos mais difíceis.

No puerpério tardio (do 10º dia ao 42º ou mais) esses sentimentos costumam melhorar, mas a mulher ainda está vivenciando todas as mudanças que o nascimento de um filho traz consigo. Segundo Alexandre Coimbra Amaral, “o puerpério é um momento de reflexão profunda. De reconstrução da identidade, de introspecção, de exaustão e de desconhecimento de si. É aquele momento em que a mulher se olha no espelho e não se reconhece. Percebe que está se transformando em uma outra pessoa”. Todo e qualquer sentimento ou emoção cabe nesta fase de transição, e deve ser acolhido e cuidado com todo amor pela rede de apoio, pelos profissionais que acompanham a mulher e o bebe, e principalmente pelo companheiro e outros familiares.

Além dos sintomas normais do puerpério, pode se instalar também a depressão pós-parto (DPP). A DPP é uma patologia grave, que acomete cerca de 10 a 15% das mulheres, e que se inicia, geralmente, algumas semanas depois do nascimento da criança e pode se estender por muitos meses. Essa doença retira a vitalidade da nova mãe, que muitas vezes não consegue se conectar com o bebê, sente-se despreparada e sem forças para cuidar deste bebê e demais tarefas do dia a dia. Geralmente a mulher perde o interesse por tudo (não só pelo filho). Além disso, pode desenvolver sentimentos negativos em relação à criança, rejeitá-la e/ou ter pensamentos e desejos agressivos em relação a ela. Todos esses sintomas são causados pela depressão, e essa mãe precisa de ajuda e tratamento especializado (psicológico e psiquiátrico).

É muito importante buscar ajuda profissional para avaliar o caso e iniciar tratamento o mais breve possível. O diagnóstico e conseqüente tratamento costumam demorar por ser comum que a mulher se sinta envergonhada de seus sentimentos, e pense que é a única a passar por isso. Sempre faço questão de afirmar que a depressão é uma doença como outra qualquer, e não depende de força de vontade, autocontrole, ou qualquer outro tipo de “dedicação” para melhorar. E ela também não é culpa da mãe (ou de qualquer pessoa!).  Há sempre quem diga: “Mas seu bebê nasceu perfeito e é isso que importa!!! Seu filho é saudável, você devia agradecer e não reclamar!!!”. Não se deixe abalar. A culpa não é sua.  Busque ajuda.

Em muitos países com um maior controle e registro das causas de morte materna, o suicídio (ou tentativa) de gestante ou mulher até 1 ano após o parto é considerado MORTE (ou morbidade) MATERNA. Gestação e puerpério aumentam o risco de depressão e de ideação suicida. Isso é muito sério. É de extrema importância que a saúde mental da mãe ou puérpera seja olhada, cuidada, avaliada e promovida. Às vezes só uma investigação mais profunda possibilita um diagnóstico correto. Muitas vezes a mãe está “funcional”, e isso não significa que ela está sã. Nem toda mãe que consegue cuidar de seu bebê está saudável. Estar aparentemente bem não significa que, por dentro, uma mãe não esteja prestes a explodir, desistir ou cometer um ato impensado que poderia ser evitado.

Procurem ajuda! Observem suas amigas, companheiras, filhas, irmãs! Na maioria das vezes, a mulher não consegue identificar e buscar ajuda por si só.

Um mundo com mais amor, atenção e saúde mental a todas (e todos!) nós! Que assim seja!

 

Daniela Faria

Psicóloga

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